E eu achei que conseguiria ficar sem comentar sobre o bendito vestido rosa. Prometi que guardaria minha opinião para mim. Os recentes atos e manifestações de repúdio às atitudes dos alunos e da direção da Uniban, no entanto, me obrigam a escrever o que penso para que todos os milhões de leitores do pessoal, particular possam ler.
Concordo que é inadmissível o fato de uma jovem ser humilhada e ofendida por aproximadamente 700 alunos (que em coro a chamavam de puta) no interior de uma instituição que deveria ser comprometida com a construção de um pensamento ético e intelectual na cabecinha de todos aqueles baderneiros. Aceito que é vergonhoso o despreparo da universidade Uniban ao expulsar e em seguida desexpulsar a jovem, sem apresentar nenhum tipo de punição para os que entoaram o coro de tão requintados elogios à moça. Mas tem algo que me incomoda nisso tudo e é a mobilização gerada para defender Geisy Arruda.
O pecado de Geisy não foi o vestido, mas sim sua postura. A jovem já havia sido advertida pela faculdade por usar roupas provocantes na instituição. Além disso, várias testemunhas confirmaram que Geisy não apenas trajava o polêmico vestido, mas que também o levantava ao caminhar pelas rampas da Uniban para deixar à mostra a sua calcinha para quem quisesse ver. E podem me chamar de falso-moralista mas eu chamo de hipócrita alguém que disser que, ao encontrar em sua faculdade alguma menina desfilando e mostrando a perseguida para meio mundo, aplaudiria e diria: “Bravo! Este é um direito seu! Não deixe que te reprimam!”.
Os alunos foram intolerantes, selvagens, arcaicos, repressivos e maldosos, ou Geisy agiu de uma maneira imprópria para o ambiente em que estava? Eu diria os dois. Mas até aí, tudo bem. Absolvam a moça e condenem os alunos e a faculdade. Eu não ligo. Eu só ligo quando eu vejo todo o sofrimento que Geisy está vivendo após o episódio.

Geisy muito triste e magoada com aplique importado da Alemanha
Enfim, ver esse tipo de coisa é o que me deixa puto de verdade. Agindo de forma correta ou incorreta, fato é que a opinião pública elegeu Geisy como coitada da história e ela tinha o poder para fazer alguma coisa contra a intolerância e repressão às quais as mulheres são submetidas desde que Deus arrancou a costela de Adão e fez uma companheira pra ele poder trocar uma idéias lá no Éden. Geisy poderia se tornar um mártir para todas as feministas de plantão, (tá, eu sei que estou exaerando) defender o direito de usar o vestido que ela quiser, onde ela bem entender e mostrar o que é dela para quem estiver disposto a ver. Mas Geisy, na verdade, está usando toda a atenção que lhe é dada não para divulgar sua história ou lutar por direitos, mas para se promover. A jovem, que aparece quase que diariamente na televisão usando seu vestido rosa, estrelará campanha para a marca de lingeries Duloren, além de estar na mira de programas do SBT, revistas masculinas, produtoras de filmes pornôs, clinicas de estética e salões de beleza. Parece que no fim das contas a moça não se deu tão mal assim.
Certo ou errado, culpado ou inocente. Eu não sei e nem quero saber e já me enchi desse assunto todo. Só acho que seria mais digno e mais justo, ao invés de ficarmos nus nas nossa universidades para defender a moça do vestido curto, se nós nos manifestássemos pelas milhares de mulheres que sofrem violência doméstica diariamente. Ou se talvez nos mobilizássemos pelas meninas que são aliciadas para a prostituição infantil ou são estupradas dentro da própria casa. Por essas pessoas que vêem sua dignidade arrancada muitas vezes por alguém que vive sob o mesmo teto. Por mulheres e crianças que têm vergonha de pedir ajuda a parentes, a amigos, à Polícia, que dirá de correr atrás dos grandes canais de televisão. Elas sim merecem a atenção que ninguém dá e continuam sofrendo em silêncio enquanto uns e outros transformam suas tragédias em um circo ou um reality show.
Publicado por débora em 14/11/2009 às 15:49 r r
concordo plenamente, adorei o texto!
Publicado por Vivyane Garbelini em 14/11/2009 às 22:31 r r
também adorei o texto e acho que o (pós)feminismo inteligente não a elegeria de mártir, ou algo parecido. o último parágrafo, sim, resume o que eu acho importante na luta feminina e feminista.
Publicado por Bibes em 15/11/2009 às 23:10 r r
Ei Dé! Nossa, como é incrivel como nao te conheço! Li o Blog e jurava que poderia ter sido qquer pessoa que escreveu estes posts, menos vc! Loucura não?
Visitarei mais vezes, tente atualizar mais.
beijo-me-liga
Publicado por Carla em 18/11/2009 às 23:22 r r
Adorei o texto….realmente genial!!!!!Não aguento mais ouvir falar dessa mulher…bjo
Publicado por Magiu Pinheiro em 19/11/2009 às 22:29 r r
Gostei muito do texto e da opinião. Experiência não é o que acontece com uma pessoa, mas o que ela faz disso.
Geisy é tão machista quanto os outros estudantes – não só da Uniban, sejamos sinceros.