E no seu reino ele construiu inúmeros castelos dos mais variados tipos. Altos, baixos, grandes, pequenos, de pedra, de mármore, de ouro. Cada um com sua peculiaridade, cada um com seu defeito, mas a todos ele se dedicou o máximo que pôde e o quanto achou que era justo. Alguns destes castelos não poderiam sequer ter sido construídos no mesmo reino. Seus habitantes eram muito diferentes uns dos outros, o que trazia alguns conflitos a seu povo e pesar ao líder, mas ele era um homem muito sábio e fazia com que no final tudo desse certo e todos vivessem felizes.
O tempo passou e o velho rei pediu que alguns de seus súditos fiéis o levassem ao topo da mais alta montanha de suas terras para que ele pudesse contemplar tudo o que havia feito construído. Ele viu que alguns de seus castelos, apesar de afetados pelo tempo e todas as adversidades que este trás, mantinham-se erguidos, firmes e com a estrutura inabalada. O rei olhou para estas fortalezas e disse aos seus criados com certeza em suas palavras: “Não importa quanto os anos passem, quanto os raios caiam, quanto o vento sopre, esses castelos jamais desabarão”.
O velho governante olhou, porém, um pouco mais longe em suas terras e no horizonte pôde observar algumas pilhas destroços. O rei refletiu e então falou: “Não sei se faltou dedicação da minha parte ou se os habitantes daqueles castelos não se importavam em mantê-los em pé, mas é fato que agora eles se encontram no chão e demandam muito tempo para serem reconstruídos. Não sei se os curtos anos que me restam serão suficientes para tanto e isto é uma pena”.
Exatamente no centro de sua propriedade, no entanto, estava o castelo pelo qual o velho rei mais prezava. Era o mais alto, mais forte e mais bonito, todo feito de ouro. O rei empenhou mais dedicação em sua construção do que na de qualquer outro castelo, mas os habitantes dos outros fortes, mesmo que um pouco enciumados, não se revoltavam contra o seu líder, pois admitiam que a construção era mesmo magnífica e sabiam quanta alegria ela trazia ao rei. Ele amava seu castelo dourado com todas as suas forças e mais do que tudo em seu reino. A fortaleza sofreu muitos danos ao passar do tempo, mas seus moradores e o rei somavam esforços e reconstruíam o majestoso castelo toda vez que ele era ameaçado. O ancião, porém, admirava a mais querida de suas construções com tristeza. Acontece que algo tão bonito e suntuoso exigiu muito tempo e força do rei e de seus súditos e os anos fizeram com que a manutenção do castelo se tornasse um fardo para todos eles. O sábio líder tinha a consciência que, sem dedicação de todos, manter a fortaleza seria em vão. As pedras colocadas no lugar contra a vontade continuariam caindo e ninguém se importaria. Não valia a pena, enfim, sustentar o castelo apenas pela beleza que ele exibiu outrora. Era necessário destruí-lo, para livrar os habitantes do fardo e o governante da dor, caso contrário todos sofreriam enquanto o castelo perecesse um pouco por dia.
Nesse momento, no entanto, faltou ao rei a maior de suas virtudes: a coragem. Como colocar abaixo ou deixar ao relento algo que exigiu tanto para ser construído? Como esquecer dos moradores que acompanharam seu governante durante tanto tempo? Talvez, usando todas as suas forças, o rei conseguisse recuperar a beleza e o esplendor de seu querido castelo, mas isso, sem dúvida, tiraria do ancião o resto de vida que o tempo ainda não havia levado. Assim aquele gigante dourado permanecia sem sentido no meio de suas terras, com pedras caindo aos poucos e sem ninguém para defendê-lo. Os súditos olharam fixamente para o rei, esperando suas palavras de sabedoria, mas pela primeira vez ele não sabia o que dizer ou o que fazer. Então ele não disse e não fez nada e continuou assistindo o inevitável.
Publicado por Cá em 16/04/2010 às 17:16 r r
E sabe qual é a parte mais complicada? Apenas o rei pode decidir o que fazer com o castelo preferido, mas com certeza, qualquer que seja a decisão, será a melhor pra ele, afinal ele decide o que fazer com o reino, certo?
Adorei o texto, by the way!
Beijo